VERÔNICA CONTA A ROTINA DA CASA DAS QUENGAS

Riacho das quengas – Joilson Assis 80


A maioria das meninas assistia a cena no quarto ao lado e que havia uma lista de homens importantes para me possuírem. Prefeitos, vereadores, deputados, empresários e homens importantes da cidade souberam que havia uma quenga nova na casa de dona Yaýa. Dois todas as noites me possuíam e eu me sentia exausta e suja muitas vezes. Como diz o ditado o homem se acostuma com o bem e com o mal. Eu tinha uma idéia fixa em minha mente que iria sai Dalí, mas pouco a pouco fui levando para a normalidade todos os fatos que ali aconteciam.
Fiz amizade com as meninas e nos tornamos muito amigas. Existia Judite a mais brava de todas que batia em todos os homens sem distinção bastava insultá-la. Era uma ótima pessoa, amiga e simples, mas os homens que brincavam com ela, não a pagava ou tentava queimá-la com pontas de cigarro, apanhava feio e quem se colocasse no meio apanhava também; a mulher era uma fera. Tinha várias Anas: Ana Carla, Ana Cristina, Ana Paula todas elas tinham cabelos lindos e passavam o dia tratando deles. Tinha uma chamada de Severina e outra que se tornou minha grande amiga chamada de Sara. A mais nova era Nita que tinha apenas treze anos e veio de fora para a cidade com uma caravana que era comum na









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Época. Homens amigos das quengas saiam pelos sertões e traziam meninas para Campina, para fazerem “vida” nos cabarés da cidade. Era uma triste, pois casas de quengas para serem utilizadas como objetos de prazer enriquecendo as cafetinas da época. Muitas fugiam e outras conseguiam maridos e viajavam com eles era o movimento daquele campo de concentração social e moral.
Pouco a pouco passei, a saber, o sonho de cada uma daquelas mulheres: Sara desejava se casar, Ana Paula colocar a própria casa de quenga e Ana Carla de voltar para a família na Bahia com muito dinheiro. O maior sonho delas era realmente conseguir um homem para se casar mesmo que fosse velho. Pouco a pouco percebi que aquelas mulheres eram simplesmente humanas e como qualquer outra AINDA SONHAVA. É verdade que existem aquelas desbocadas que falavam muitos palavrões e demonstravam grande revolta, brigavam com todos, mas eu via que elas eram apenas revoltadas por serem tratadas como lixo humano restritas somente aquelas casas de taipas. A sociedade as tinham colocados no surbiu da vida e atribuído a elas mesmo praticavam. Muitas ainda era índias vindas de lugares afastados de










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Tudo e agora habitavam em outro lugar afastado também de tudo que se chama realização. Entre as quengas havia mulheres abandonadas pelos esposos que viajaram e nunca voltaram e pra elas não morrerem de fome com seus filhos optavam para a prostituição. Virgens perdidas como eram chamadas as mulheres que perdiam suas virgindades e o pai moralista as trazia ou enviavam para as casas das quengas. Mulheres acusadas de adultérios e julgadas pela sociedade acabavam morando no cabaré. Mas havia aquelas mulheres que vinham por vontade própria e se tornavam quengas por muitos motivos: Revolta contra a família, contra o marido etc. outras eram criadas no mundo como “Deus criou batata” jogadas pelas ruas e acabavam no cabaré.
A produção de meninos no Riacho das quengas era grande, pois não existiam meios de evitar filhos eficazes. Existiam alguns chás, mas era garantida. Também era utilizada pucumã (teia de aranha com fuligens de fumaça) para abortar, mas nesta tentativa algumas até morriam. Enquanto o meu “bucho” crescia outras meninas davam a luz ali mesmo através de parteiras que vinham aos barracos da taipa fazerem o parto. Na maioria










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Dos casos estas crianças eram dadas aos ricos da cidade que solicitavam as crianças até na barriga da menina. Outras deixavam nas portas dos ricos e os mesmo criavam aquela criança como se fosse sua. Estes fatos eram comuns em demasia e a produção de meninos eram muito grande.
O clima do local invocava uma Inteligência diferente, um clima de esperteza e clareza havia no meio de nós. Parecia que algumas quengas queriam ser mais moralistas que as mulheres da sociedade. Outras se entregavam a bebidas, principalmente quando ficavam velhas e os clientes as rejeitavam. As vezes encontrávamos quengas caídas e mortas as margens do açude de Bodocongó, elas morriam de tristeza e dadas ao vinho. Pobres e distantes da família, com seus corpos envelhecidos e rejeitados pelos homens elas morriam de tristeza e depois seus corpos morriam de álcool. Aquelas mulheres tão desejadas pelos homens morriam caindo os pedaços de seus corpos por doenças venéreas desconhecidas. Muitas delas morriam muito cedo de infecções desconhecidas e por terem pouca resistência a doenças morriam logo. As mulheres de origem índia que tinham pouca resistência










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Morriam logo. As doenças mais comuns entre as quengas eram uma coceira que às vezes atingia a todas, piolho que eram catados nas calçadas e mortos a unha. A coceira era tratada com banho quente de melão de São Caetano (planta local que serve para coceira).
As brigas eram comuns, homens contra homens disputando quengas, mulheres com homens por não pagarem a noite mulheres vinham buscar os seus maridos estavam em nossos braços e quengas com esposas enciumadas. Existiam tantas brigas que até nos acostumados com elas, até achávamos graça com a baixaria que de vez enquado nos visitava. A briga mais engraçada que presenciei foi a de Judite com dois homens, um irmão do outro que tentaram queimá-la com pontas de cigarro.
Coitados apanharam até umas horas. Judite era uma lutadora “nata” e a sua valentia a fazia enfrentar até a policia quando era chamada. “Eita mulher danada de brava”! A nossa policia era ela, verdadeira e apegada ao que certo ela nunca rejeitou uma boa briga. Ela tinha pernas fortes e braços potentes era uma verdadeira guerreira.











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O tempo passou rápido e eu dei a luz a um menino o qual chamei de Gabriel, o nome de um anjo de Deus. Nasceu lindo e o seu choro me agradava, era como música aos meus ouvidos sofridos. Fiquei com ele mais de seis meses quando me convenci que eu não tinha condições de criá-lo e mais uma vez na vida iria perder mais um homem que eu amava. Algumas memórias nos fazem sofrer muito e a dor parece nunca envelhecer. Fui até a casa do Majó Juvino esposo de Dona América Correia e deixei Gabriel em uma cestinha com roupinhas que eu tinha recebido de dona Yaýa. O menino chorou muito e o meu medo era dos cães da casa fossem soltos e devorassem Gabriel. Então segurei um pedaço de pau e coloquei em meu coração a disposição de correr e atacar os cães se eles fossem solto. Como tive medo daquele momento acontecer, mas repentinamente a porta se abre e uma mulher anuncia...
- Dona Marquinha é um menino! Um menino lindo venha ver!
Naquele momento eu não sabia se chorava ou se sorria, mas em minha face aconteceu os dois ao mesmo tempo. Minha face sorria, mas os meus olhos e coração choravam. As lagrimas caiam sobre os meus seios ainda cheios de leite para Gabriel mamar.









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- Será Deus que o Senhor me abandonou? Por que a minha vida é tão triste assim? Meu...
Depois de chorar muito até o soluço surgir sai sem graça e sem alma pela grande floresta que havia na região na época. Sai entre as árvores sem destino querendo morrer desaparecer da terra. Andei pela mata de Dona Merquinha até a mata do Joel que ficava ao norte do açude de bodocongó. Parecia que eu tinha nascido um lixo humano jogado nesta terra para “penar”
- Gabriel Deus te abençoe e te guarde, te torne um grande homem e te livre do terrível destino que sua mãe tem.

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